sábado, 27 de março de 2010

Ficção (ou não) 4

De frente a um matagal que se perde de vista, tão grande, tão verde, tão misterioso. Respira fundo, sente o cheiro de mato que preenche bem aquela situação. Por alguns instantes tenta bolar rapidamente um plano de fuga eficaz, tenta sem sucesso um salvador teletrasporte, mas ao perceber que não há retorno à sua escolha anterior ele contorna o medo respirando fundo novamente, o pé direito dá o primeiro passo ao desconhecido. Pra que entrar nesse mundo alheio, cheio de vida, rotinas, ciclos, ritmos que não seus? Provar pra quem, além de si mesmo, que é capaz de enfrentar uma trilha sem destino, aventuras sem heróis, invadir uma terra de ninguém mas que pertence a todos nós? Chega de pensar! Ele não quer mais perguntas e dúvidas tão caracteristicas de ser humano, de ser alguém, de ser ninguém, agora é ele, seus passos e a natureza. Sem falar ele escuta os sons, sem agredir ele sente a mesma brisa que movimenta os galhos das árvores, um ser atento, um ser que sente. Atenciosamente observa o deslizar de uma cobra por entre calhos caidos e folhas secas, sentindo se também como cobra está certo que tal não irá pertubá-lo, aliás, poderá quem sabe ajudá-lo. Logo após encanta-se com uma borboleta que pousa na única flor rosa desabrochada em meio aos promissores botões. Comunha-se com o ambiente, há algumas horas estava homem racional, nesse momento está homem animal. Percorre mais alguns passos, quieto, cuidadoso até seus olhos não enxergarem mais o verde, agora se deparam com o claro azul do céu misturado com alguns tons avermelhados num típico pôr-do-sol, mas aquele não era um típico pôr-de-sol, não pra ele. Sentiu o ar mais leve, ele estava mais leve, sem medo na bera de um penhasco contemplando o que o rodeava, contemplando seu estado de calmaria. Não existia ontem, não existia o amanhã, o que estava lá era tudo. Não mais um ser, não mais uma questão, era um tudo era um nada.

Um comentário:

  1. Um indivíduo não existe em um "dentro" por oposição a um "fora" perante o qual se coloca, somos antes o mundo de certa maneira recomposto por nossos pedaços de contato com o que não somos. Este seu "eu" vazio, que repara no espaço que o constitui, me faz pensar assim.

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